A Ditadura Ideal

Navegando no Facebook me deparei com a incrível frase de um colega: “a ditadura ideal é aquela onde eu seria o ditador”. De primeiro momento ri, afinal era claramente o objetivo da postagem. Posteriormente em uma pequena reflexão me dei conta de que este pensamento é provavelmente óbvio.

Algumas mentes brilhantes da filosofia moderna afirmam que quando opinamos queremos sempre convencer e não argumentar. Organicamente nunca buscamos complementar, queremos sempre de maneira viceral impor o nossos pensamentos. Apesar disso de fato parecer ruim, se extrairmos o filtro da hipocrisia o conceito é naturalmente verdadeiro. Em uma suposta reunião de condomínio dificilmente vamos dispostos a aceitar o aumento do salário do síndico, independentemente de seu argumento. Assim como o próprio síndico não consegue compreender como este aumento não é encarado como necessário pelos demais condôminos. Cria-se então uma guerra civil condominial eterna onde os inimigos moram dentro de uma mesma fortaleza.

Seguindo na tangente destes caminhos opostos, não é difícil vir o ímpeto de racionalidade e querer propor uma solução intermediária para a questão. Do alto de nosso tablado moral, nos vemos capazes de tomar decisões sensatas que resolveriam o conflito. Em muitas vezes é possível nos imaginar guiando a discussão em caminho à paz. Todavia normalmente, o que pareceria ser a solução, transforma a atual guerra bipolar em uma briga generalizada. Chegando ao ponto alto do conflito a sensatez não racionaliza o porque dos lados opostos não compreendem que o meio termo é justo para todos.

O problema é que a sensatez não é necessariamente uma qualidade nestes contextos. Na verdade o sensato, assim como os que querem o aumento para o síndico e os que não, é igualmente impositivo no seu pensamento. O sensato quer que ambos os lados ganhem, mas não entende que para isso precisa se impor. Não consegue observar que ao defender sua visão de centro e justiça é igualmente ditatorial do que a imposição dos lados opostos. Acontece que para o sensato, ele age em prol do bem comum, entretanto os outros dois lados, mesmo em suas visões conflitantes, também.

Todo este imbróglio ideológico nos remete a questão central, todos querem o bem comum, entretanto os almejam de formas diferentes. Não é exatamente suas concepções sobre o bem que são conflitantes, mas sim o conceito de comum. Enquanto o síndico vê que o aumento de seu salário poderá aumentar seu empenho e dedicação para com os demais. Os condôminos enxergam que a economia no bolso de todos é uma benfeitoria maior.

Quando observo esta confusão de idéias e conceitos começo a entender claramente de onde surgem os pensamentos ditatoriais. Inclusive sou capaz de imaginar como o mundo seria agradável se minhas idéias de bem comum fossem consenso. Certamente seria o mundo um lugar mais justo, mais equilibrado, mais humano e necessariamente melhor. É possível até mesmo conjecturar que depois de anos de trabalho árduo, em prol do bem comum, eu consideraria justo que eu fosse recompensado por tudo que fiz. Inclusive consideraria um absurdo os que se opõe à este pensamento, e provavelmente com todo o poder nas mãos silenciaria os opositores.

Mas para qualquer ditador sempre pode haver redenção. Hipoteticamente eu poderia retomar minhas convicções ideológicas e observar que minhas ações não resultaram em bem estar comum. Poderia até mesmo me arrepender de atos extremos tomados no ímpeto de minha cegueira social. Mas muito provavelmente nunca voltaria atras, afinal é bem mais fácil ser um ditador rico e poderoso do que um sensato pobre e ignorante.

Bandido bom não é bandido

O caos da vida urbana invade brutalmente a nossa realidade diariamente. Vivenciamos a crueldade e a banalidade da violência em tantas instâncias do nosso cotidiano que sequer nos chocamos com a quantidade de novas lápides resultantes deste conflito. A sensação de impunidade, da falta de uma cultura resolutiva de problemas, de fato nos leva a pensar em soluções imediatas e definitivas. Com a mutilação da esperança o pensamento que paira no ar eventualmente costuma ser “bandido bom é bandido morto”.

Não é incomum as redes sociais dispararem um fuzilamento de ‘likes’ para postagens que contém casos de olho por olho, dente por dente. Estupradores, assaltantes, molestadores são constantemente linchados em praça pública. Os espectadores curtem a cada chute, a cada gota de sangue, a cada paulada e a cada bandido condenado a morte pelas mãos dos justiceiros. A selvageria é aplaudida pelos presentes, incentivada pelos distantes mas também sentida pelo agredido.

Desconectamos de nossa consciência quando assistimos estes atos e temos a sensação de que a justiça está sendo feita. Ao assistir, mas não participar, nossa mente segue um movimento de manada inconsciente que quer justificar a nós mesmos de que aquilo resolverá o problema. Mas nossa mente funciona de uma maneira muito curiosa, ver um outro indivíduo sofrer não é o mesmo que sentir a dor. Temos a capacidade de nos despir da humanidade quando o resultado de uma atrocidade está sendo feita por um ‘bem maior’, por justiça.

É muito interessante como nós podemos ser vários ‘Eus’ diferentes. O ‘Eu’ do presente, que vive, que sente, que sofre não é o mesmo ‘Eu’ do futuro. O ‘Eu’ do futuro planeja, tem esperança, tem expectativas mas nem sempre tem consequências. O ‘Eu’ do futuro quer fazer aquela dieta rígida e restritiva para perder 5 quilos em 5 dias. Entretanto o ‘Eu’ do presente, que vive a dieta, não consegue passar dois dias sem comer bacon e sorvete. Já o ‘Eu’ do passado sempre revive memórias e não sentimentos. Ele carrega emoções, arrependimentos e emoções, mas nunca revive o fato.

Os diferentes espelhos distorcidos de nós mesmos é que permitem que o ‘Eu’ que incentiva nem sempre seja o mesmo ‘Eu’ que agride. Todo o domingo somos capazes de sermos hipnotizados pelas trapalhadas das vídeo cassetadas e rir. Todavia não movemos um sorriso sequer ao quebrar a própria unha do dedinho do pé na quina da geladeira. Por conta deste enredo estranho que é a vida em sociedade, onde cada ‘Eu’ pode dividir-se em muitos, conseguimos desejar coisas a outros, mas não necessariamente queremos o mesmo para nós.

A questão não é julgar se o agredido de um linchamento merece ou não a pena que está sofrendo. O questionamento parte do princípio de que o agressor nem sempre se coloca no lugar do agredido. Assim como, muito provavelmente, o molestador horas antes não se colocou no lugar de sua vítima. Sim, na vida em sociedade precisamos de instrumentos de controle, de hierarquia e punição. Entretanto nem todos estão preparados para julgar e carregar as consequências de seus atos.

Um bandido que comete estupro é consensualmente um perigo, um indivíduo que merece punição. Este julgamento é o mesmo para assassinos, molestadores e outros tipos de criminosos bárbaros. Todo este consenso vem do senso comum de que estes seres não carregam humanidade e, por conta disso, não merecem gozar da vida livre em sociedade.

No momento de levantar um pedaço de pau, inferir um golpe ou ao apertar o gatilho para fazer justiça, o indivíduo agressor está cometendo ao agredido o mesmo crime ao qual está julgando-o culpado. Essa dualidade da ação é racionalmente lógica mas emocionalmente conflitante. Parece justa aquela agressão, parece correta, parece coerente, mas de fato não é. Se o agredido é um ser inferior ou desumano por agredir a sangue frio alguém em um assalto, o linchador, ou justiceiro, também é ao fazer o mesmo.

Todas estas questões nos levam a pensar sobre o conceito de humanidade, sociedade e justiça, talvez também nos levem a refletir. Provavelmente o bandido bom não é o bandido morto. Talvez o bandido bom é aquele que não é bandido. É aquele que não precisou puxar o gatinho, é aquele que não precisou assaltar, é aquele que não estuprou, é aquele que não agrediu. Mas muito provavelmente também, o bandido bom é aquele que também não julgou e que não assassinou o assassino por justiça.