Polarização

O sucesso ou o fracasso, o pobre ou o rico, o honesto e o corrupto, o petralha ou o coxinha. Observando as pessoas nos últimos tempos eu vejo que pouco importa o debate, o contexto, o sentido. O que realmente importa é que você escolha um lado. A questão que paira no ar é exatamente o mais instantâneo pensamento, em qual lado você está? Na verdade, eu creio, que o bom é não estar em lado nenhum, escolher um lado sempre me parece radicar o outro e isso não me aparenta ser saudável.

Quando eu era criança lembro-me do time de futebol do Glória, um grupinho de 10 garotos entre 8 a 12 anos que jogava futebol em um campinho de terra. Em um fatídico dia este grupo desentendeu-se, foram os quatro meninos da rua Fernandes para um lado e os 5 garotos da Igrejinha para outro. Eu, o décimo indivíduo até então pertencente aos dois grupos, me encontrei na posição de pressionado a tomar uma decisão, escolher um lado. No calor do desentendimento eu fico na dúvida até hoje se todos tinham em mente que para se jogar futebol é necessário ter 5 jogadores para cada lado.

O meu querido e esperado horário diário de diversão estava em jogo. Escolher um lado, neste caso, nunca seria uma boa opção para mim. Posicionar-me a favor de um ou de outro apenas gerava um novo problema do ponto de vista esportivo. Seríamos 6 de um lado, ou 5 de outro, mas nunca mais seríamos 10. Meu futebol estava arruinado, independentemente dos motivos que levaram a separação da unidade futebolística, outrora amigável, a escolha resultaria em fracasso. Eu, que nada tinha motivos para brigar, não tinha inimizades com nenhuma das partes conflitantes estava fadado a condenação imediata. Todos os resultados possíveis de uma escolha eram catastróficos para mim, ou perderia 5 amigos ou perderia 4 deles. Mas o que mais me intrigava é que todos, em qualquer dos resultados possíveis da polarização, seriam vítimas da eterna solidão esportiva.

Em todo o contexto que ocasionou a fatídica desunião do grupo eu, como indivíduo, poderia até concordar com motivos defendidos por cada uma das partes. O pessoal da Igrejinha sempre chegava tarde, e por conta disso só tínhamos 40 minutos de jogo antes de escurecer. Entretanto o grupo da Fernandes sempre insistia em jogar descalço, eles tinham seus motivos, mas isso significava sempre voltar com o pé ralado para casa.

Entre perder 20 minutos de jogo por dia ou ter que fazer o uso de merthiolate, sempre optei pela união de mútuo interesse formada por nossos diários e felizes momentos de fenômenos dos campos de terra. Sempre encarei que as diferenças de nosso grupo eram irrelevantes perante aos incríveis momentos de diversão e arte esportiva.

Eu errei, eu errei feio ao pensar que o bom resultado da união de nossas diferenças seria o suficiente para manter o grupo unido. A necessidade deles de unirem-se em busca de uma causa que os representassem resultou em uma falta grave, o fim da era do futebol de várzea do campinho do Glória. Na minha cabeça eu não conseguia entender como que as opiniões pessoais poderiam prevalecer ao perfeito e magnífico bem comum.

Empiricamente aprendi que nem todos realmente preocupam-se com o resultado de seu posicionamento ideológico, não importa a sua idade, contexto ou maturidade. Não é relevante que o futebol só poderia acontecer se cada um conseguisse abdicasse um pouco de suas convicções ideológicas em prol deste benefício mútuo. O que realmente importava ali era posicionar-se, independentemente se as consequências fossem o caos e a inexistência da prática de seu hobbie.

Foram semanas sem futebol, sem amigos, semanas de constantes cobranças das partes conflitantes do porque me acovardei e não escolhi um lado. Meses se passaram e conheci novos amigos, lá estava eu novamente praticando o esporte com minhas velhas chuteiras. Estava embriagado com meu sucesso político que resultou na união de dois novos grupos, os 6 estudantes da escola ao lado e os 6 colegas do skate da pracinha.

Jogamos por meses revezando 10 em campo e 3 na reserva, afinal éramos 13 agora. Esse modelo era muito vantajoso, permitia inclusive que na falta de algum atleta, o jogo pudesse continuar por conta do excedente de quorum. Mas em um certo dia após horas de discussão sobre a melhor forma de rodízio dos jogadores surgiu o questionamento do porque tínhamos que fazer isso, revezar. Afinal, obviamente, todos tinham o interesse pessoal de jogar os 60 minutos corridos. Já em estado de alerta temi pelo pior, o risco de uma nova revolução ideológica estava prestes a surgir novamente. Entretanto ironicamente desta vez não houve polarização, houve consenso. Onde joga-se 5 contra 5, joga-se com 6 contra 6 sem a necessidade de substituições.

De agregador a inútil, este foi meu último dia de jogo.