Bandido bom não é bandido

O caos da vida urbana invade brutalmente a nossa realidade diariamente. Vivenciamos a crueldade e a banalidade da violência em tantas instâncias do nosso cotidiano que sequer nos chocamos com a quantidade de novas lápides resultantes deste conflito. A sensação de impunidade, da falta de uma cultura resolutiva de problemas, de fato nos leva a pensar em soluções imediatas e definitivas. Com a mutilação da esperança o pensamento que paira no ar eventualmente costuma ser “bandido bom é bandido morto”.

Não é incomum as redes sociais dispararem um fuzilamento de ‘likes’ para postagens que contém casos de olho por olho, dente por dente. Estupradores, assaltantes, molestadores são constantemente linchados em praça pública. Os espectadores curtem a cada chute, a cada gota de sangue, a cada paulada e a cada bandido condenado a morte pelas mãos dos justiceiros. A selvageria é aplaudida pelos presentes, incentivada pelos distantes mas também sentida pelo agredido.

Desconectamos de nossa consciência quando assistimos estes atos e temos a sensação de que a justiça está sendo feita. Ao assistir, mas não participar, nossa mente segue um movimento de manada inconsciente que quer justificar a nós mesmos de que aquilo resolverá o problema. Mas nossa mente funciona de uma maneira muito curiosa, ver um outro indivíduo sofrer não é o mesmo que sentir a dor. Temos a capacidade de nos despir da humanidade quando o resultado de uma atrocidade está sendo feita por um ‘bem maior’, por justiça.

É muito interessante como nós podemos ser vários ‘Eus’ diferentes. O ‘Eu’ do presente, que vive, que sente, que sofre não é o mesmo ‘Eu’ do futuro. O ‘Eu’ do futuro planeja, tem esperança, tem expectativas mas nem sempre tem consequências. O ‘Eu’ do futuro quer fazer aquela dieta rígida e restritiva para perder 5 quilos em 5 dias. Entretanto o ‘Eu’ do presente, que vive a dieta, não consegue passar dois dias sem comer bacon e sorvete. Já o ‘Eu’ do passado sempre revive memórias e não sentimentos. Ele carrega emoções, arrependimentos e emoções, mas nunca revive o fato.

Os diferentes espelhos distorcidos de nós mesmos é que permitem que o ‘Eu’ que incentiva nem sempre seja o mesmo ‘Eu’ que agride. Todo o domingo somos capazes de sermos hipnotizados pelas trapalhadas das vídeo cassetadas e rir. Todavia não movemos um sorriso sequer ao quebrar a própria unha do dedinho do pé na quina da geladeira. Por conta deste enredo estranho que é a vida em sociedade, onde cada ‘Eu’ pode dividir-se em muitos, conseguimos desejar coisas a outros, mas não necessariamente queremos o mesmo para nós.

A questão não é julgar se o agredido de um linchamento merece ou não a pena que está sofrendo. O questionamento parte do princípio de que o agressor nem sempre se coloca no lugar do agredido. Assim como, muito provavelmente, o molestador horas antes não se colocou no lugar de sua vítima. Sim, na vida em sociedade precisamos de instrumentos de controle, de hierarquia e punição. Entretanto nem todos estão preparados para julgar e carregar as consequências de seus atos.

Um bandido que comete estupro é consensualmente um perigo, um indivíduo que merece punição. Este julgamento é o mesmo para assassinos, molestadores e outros tipos de criminosos bárbaros. Todo este consenso vem do senso comum de que estes seres não carregam humanidade e, por conta disso, não merecem gozar da vida livre em sociedade.

No momento de levantar um pedaço de pau, inferir um golpe ou ao apertar o gatilho para fazer justiça, o indivíduo agressor está cometendo ao agredido o mesmo crime ao qual está julgando-o culpado. Essa dualidade da ação é racionalmente lógica mas emocionalmente conflitante. Parece justa aquela agressão, parece correta, parece coerente, mas de fato não é. Se o agredido é um ser inferior ou desumano por agredir a sangue frio alguém em um assalto, o linchador, ou justiceiro, também é ao fazer o mesmo.

Todas estas questões nos levam a pensar sobre o conceito de humanidade, sociedade e justiça, talvez também nos levem a refletir. Provavelmente o bandido bom não é o bandido morto. Talvez o bandido bom é aquele que não é bandido. É aquele que não precisou puxar o gatinho, é aquele que não precisou assaltar, é aquele que não estuprou, é aquele que não agrediu. Mas muito provavelmente também, o bandido bom é aquele que também não julgou e que não assassinou o assassino por justiça.

 

 

 

Um comentário sobre “Bandido bom não é bandido

  1. Primeiro quero parabenizar o autor pelo excelente texto. Totalmente reflexivo do começo ao fim. Confesso que estava há 2 semanas ensaiando para lê-lo, e me arrependo de não ter feito antes.

    Esse texto é um choque de realidade nas pessoas que não estão acostumadas com o tipo de violência escancarada. Eu digo acostumado porque é isso que acontece quando certas ações fazem parte do nosso cotidiano: o caos da vida urbana.

    Muito interessante a percepção de “bandido”. Em determinados momentos, eu e você podemos nos tornar um deles, e talvez a máxima “bandido bom é bandido morto” caia por terra. Afinal de contas, você não quer morrer!

    Somos tomados por sensação de injustiça o tempo todo. E não precisa ser apenas com casos de violência. Se alguém fura a fila do cinema; inventa histórias sobre você, surge aquele sentimento de injustiça, e provavelmente o seu primeiro sentimento seja de vingança. Mas ao alimentarmos esse sentimento e executarmos alguma ação proveniente dele, seríamos nós os bandidos? Sim, seríamos bandidos.

    Concordo com o autor: “bandido bom é aquele que não é bandido”. O dilema que fica agora é: como não se tornar um bandido diante de uma sociedade tão injusta, culturalmente “pobre” (regiões específicas) e com uma violência que alcança novos horizontes a cada dia?

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